RESENHAS LITERÁRIAS

Blog literário mantido e atualizado por CRISTIAN LUIS HRUSCHKA

6/1/13

MUDANÇA DE ENDEREÇO (http://www.resenhas-literarias.blogspot.com.br)

Pessoal, agradeço a quantidade de acessos que o blog tem recebido desde que está no ar, ainda que minhas resenhas sejam tão esporádicas. Diversos dos livros que leio não encontro tempo para resenhar, sendo esta uma atividade para aqueles ocasiões em que tento exercitar um pouco minha escrita, o que deveria ser feito por todos.

 

Como este blog possui poucos recursos gráficos, sem atualizações, completamente esquecido pelo Terra, resolvi passar as resenhas para um novo endereço, onde estarei incluíndo novos post e tentando, dentro do possível, atualizá-lo com maior regularidade.

 

O novo endereço é o seguinte:

 

http://www.resenhas-literarias.blogspot.com.br

 

Espero que continuem acessando e apoiando!

 

Abraços,

 

Cristian Luis Hruschka

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5/1/13

“1989: O Ano que Mudou o Mundo”, Michael Meyer

RAZÕES PARA A QUEDA DA EUROPA COMUNISTA

MEYER, Michael, 1989: O ANO QUE MUDOU O MUNDO: a verdadeira história da queda do muro de Berlim, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009, 247 pág., tradução de Pedro Maia Soares.

No final de 2011 estive com minha esposa, Patrícia, em Berlim, capital da Alemanha. Ficamos na parte oriental, anteriormente ocupada pelos soviéticos e que ainda guarda muitas lembranças daquele período. Essa proximidade com a história me despertou o interesse, já aguçado, de conhecer as razões e motivos da queda do comunismo na Europa Oriental.

Com o término da Segunda Guerra Mundial a cidade de Berlim estava praticamente destruída. Prédios históricos, igrejas e monumentos devastados, existindo até hoje marcas desse conflito que tanto chocou o mundo. A queda do Reich, por sua vez, causou a divisão da capital alemã, sendo que a metade oriental ficou com os soviéticos, que haviam devastado Berlim vindo de Moscou, e a outra metade (ocidental) foi dividida entre os países aliados, Estados Unidos, Inglaterra e França. Como existiam regimes de governo distintos, os soviéticos entenderam por bem isolar a parte ocidental de Berlim, erguendo o muro em 1961 e com isso fomentando de maneira definitiva a “guerra fria” que se iniciava.

É a partir dessa fase histórica que Michael Meyer busca explicar as razões da queda do muro em Berlim, que culminou com a derrocada quase total do regime soviético nos países da Europa Oriental.

O livro aborda a importância de países como a Hungria, que “abriu um buraco na Cortina de Ferro” e foi a primeira a escancarar suas fronteiras com a Áustria para aqueles que assim quisessem fossem conhecer o modo de vida de um país da Europa Ocidental, onde os cidadãos não sofriam com a escassez de produtos básicos (bananas eram artigos de luxo), tampouco eram vigiados, monitorados, censurados, ou estavam submetidos ao comando de um líder como Erich Honecker, soberano da República Democrática da Alemanha.

Em outros capítulos o autor versa sobre a Polônia, Lech Walesa e o Solidariedade. Aborda sobre a Romênia, último país a manter o regime sob a mão firme do violento Ceaucescu e explica o importante papel de Václav Havel para a libertação da Tchecoslováquia do jugo soviético na conhecida “Revolução de Veludo”.

Não podemos esquecer, ainda, do papel importante de Mikhail Gorbatchov. Para o autor ele foi “a causa primeira que pôs todo o resto em movimento. Sem ele, a história da Europa Oriental e o fim do comunismo teriam sido totalmente diferentes. Sua recompensa pelos serviços prestados à humanidade foi ser despedido sem cerimônia, depois de uma tentativa de golpe, quando a própria União Soviética entrou em colapso, em 1991. Mas concederam-lhe o prêmio Nobel da Paz em 1990” (pág. 204).

Paralelo a todo esse turbilhão de acontecimentos na Europa Ocidental, os alemães de Berlim iam movimentando-se silenciosamente, observando os acontecimentos e insuflando-se de forma gradativa contra o poder dominante. Quando, em 9 de novembro de 1989 o muro de Berlim caiu, praticamente não houve resistência da polícia e do Exército. A manifestação foi pacífica, televisionada e acompanhada por todo o mundo:

“A multidão soltou um grande rugido enquanto avançava. De repente não havia mais Muro de Berlim. ‘Die Mauer ist weck’, gritavam as pessoas enquanto celebravam do alto do Muro, diante das câmeras, ao longo da noite. ‘O Muro acabou!’

“Naquele momento, a história sofreu uma reviravolta épica. Uma fronteira que durante cinco décadas dividia o Leste do Oeste foi rompida. Era como se, num piscar de olhos, o Muro de Berlim tivesse caído. A Guerra Fria acbara. De repente os alemães eram de novo alemães. Berlinenses eram berlinenses, não havia mais ‘oriental’ nem ‘ocidental’” (pág. 19).

Michael Meyer narra toda a queda do comunismo na Europa Oriental com minúcia de detalhes, com a pena fina de quem esteve no local dos acontecimentos, de quem acompanhou e manteve contato com líderes do movimento durante os períodos mais dramáticos. Excelente leitura para aquelas que pretendem conhecer um pouco da recente história mundial.

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1/10/12

Resenha: “O Monge Negro”, Anton Tchekhov

ALUCINAÇÃO E LOUCURA
TCHEKHOV, Anton. O Monge Negro, Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2012, 84 pág.
Lançado pela editora Rocco, faz parte da coleção “novelas imortais”. A tradução é de Moacir Werneck de Castro e a apresentação de ninguém menos que Fernando Sabino (que já havia o apresentado anteriormente para a coleção), mestre brasileiro em relatar o cotidiano da vida humana, fiel exemplo da literatura tchekhoviana.
Anton Pavlovitch Tchekhov nasceu em 1860 na pequena cidade russa de Taganrog e teve uma infância muito dura. Apesar das dificuldades conseguiu graduar-se em medicina, porém a literatura falou mais alto. Ao lado de Tolstoi, Gorki, Gogol e Dostoieski é um dos maiores escritores russos de todos os tempos. No gênero “conto” o maior! Quando morreu precocemente em 1904, deixou extensa obra, entre elas muitas peças teatrais.
No início sua literatura era voltada para o cômico, com textos recheados de ironia. Nessa fase Tchekhov explora com minúcia o  cotidiano, relatando situações comuns a todos mas ao mesmo tempo imperceptíveis. A objetividade de sua escrita impressiona e cada palavra supérflua é retirada do texto, tornando-o simples e preciso.

Como reflexo de seu amadurecimento literário, o escritor passa a se voltar para o ser humano, buscando apresentar a essência de cada indivíduo, seus conflitos, suas emoções, suas loucuras.

Nessa fase escreve a novela “O Monge Negro”, onde o persongem principal, Kovrin, um escritor talentoso e amado por todos, em certa oportunidade depara-se com uma figura fantasmagórica que o faz mergular em sua própria imaginação. Movido pela euforia que lhe proporcionam os contatos com esta aparição, Kovrin se sente bem, porém, ao ser tratado por sua esposa e pela família dela, que julgou estar Kovrin sofrendo transtornos psicológicos, conversando com quem não existia, algo visível apenas para ele, passa a não ter mais contato com essa alucinação e acaba por colocar fim ao seu relacionamento, tornando-se uma pessoa fria, sem sentimento e insensível aos desdobramentos de seu comportamento.

Tchekhov nos mostra dois lados de um mesmo tema, a locura como ferramenta construtiva e libertadora da imaginação e seu lado perverso, aniquilando e destrindo o “louco” do seu convívio social.

Segundo “O Monge Negro” para Kovrin,“quem lhe disse que os homens de gênio, respeitados pelo mundo inteiro, não tiveram visões? Diz a ciência de hoje que o gênio está muito próximo da loucura. Creia-me, as pessoas saudáveis e normais são vulgares: o rebanho.”

A leitura é rápida, de um só fôlego. A capa é bem elaborada, excelente projeto gráfico, se apresentando como mais um convite para a leitura. Uma grande oportunidade para aqueles que ainda não conhecem a magia da literatura russa.

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8/9/12

Resenha: “O Piloto de Hitler”, C. G. Sweeting

NOTAS SOBRE O DIA-A-DIA DO FÜHRERSWEETING, C. G., O Piloto de Hitler: A vida e época de Hans Baur (tradução Elvira Serapicos), São Paulo: Ed. Jardim dos Livros, 2011, 437 pág.

 

O livro de Sweeting tem como mote a vida de Hans Baur, piloto da força aérea alemã e amigo pessoal de Hitler, todavia, narra com detalhes o desenrolar da segunda Guerra Mundial, o crescimento do nazismo após o termino da primeira grande guerra, o envolvimento do povo alemão, a derrota dos “nazi” e o suicídio de Hitler (1889-1945) e sua amante, então esposa, Eva Braun.

Tanto Baur como Hitler lutaram na primeira Guerra Mundial, o primeiro como piloto e o segundo na condição de cabo do 16o. Regimento de Infantaria da Reserva do exército bávaro. Com a assinatura do Tratado de Versalhes, que colocou fim à primeira guerra, à Alemanha mergulhou no caos, miséria e humilhação. Nesse quadro, Hitler, líder do Partido Nacional-Socialista, surgiu como uma alternativa para a reconstrução do país, gerando emprego para a construção de estradas e material bélico, ainda que de forma clandestina face as restrições impostas pelo Tratado de Versalhes. A “Luftwaffe”, nova força aérea alemã, igualmente treinava pilotos e pessoal de apoio sem o conhecimento das autoridades internacionais.

Como sua pretensão era tornar-se presidente, Hitler necessitava voar, encurtar distâncias, e para esse mister ninguém melhor que Hans Baur.

Em 25 de fevereiro de 1932, Hitler adquiriu a cidadania alemã (era austríaco, nascido em Braunau), o que lhe proporcionou concorrer a um cargo público alemão. Assim, antes mesmo de tornar-se o líder máximo da Alemanha, Hans Baur já conquistara a confiança e respeito do Führer, que lhe convidava para jantares, reuniões e, entre outros presentes,  lhe entregou sua pintura favorita, o retrato do rei Frederico, O Grande, da Prússia, de autoria de Anton Graf. Hitler ainda foi seu padrinho de casamento (primeira núpcias), enfim, mantinham estreita amizade e confiança. Baur lhe foi fiel até o último momento, inclusive após o término da II Guerra Mundial.

O livro ainda narra os fatos que antecederam os eventos da grande guerra, como a “noite das longas facas”, o controle da imprensa mantido pelo governo alemão e a forte máquina propagandista do Reich.

Independente a isso, a população o considerava um grande estadista, capaz de devolver à Alemanha o orgulho e a grandeza que possuía antes da primeira Guerra Mundial.

Em razão da proximidade de Baur com o Führer, o livro menciona fatos pitorescos da personalidade e hábitos de Hitler, como o fato de ser vegetariano e não ingerir bebidas alcoólicas, Ser contra o fumo, sequer permitindo que fumassem na sua presença, tomar dois banhos por dia, jamais permitir ser visto sem paletó e gravata, gostar de levantar após as dez horas da manhã e ficar acordado até altas horas, sempre se despedindo do último convidado em jantares, ainda que as quatro ou cinco da manhã. Hitler tinha 1,75m de altura e pesava 70 Kg.

Com riqueza de detalhes o livro narra os principais episódios da Segunda Guerra Mundial, o relacionamento do Führer com seus comandantes de alta patente, como Goering, Keitel, Jodl, Himmler, Heydrich, von Ribbentrop, o indigesto Goebbels, responsável pela propaganda nazista, ente outros. Fala sobre a SS, a Gestapo, as reuniões no “Ninho da Águia”, a estratégia de guerra, o Dia D, a batalha de Bastogne, o Bunker, campos de concentração, a “solução final”, as tentativas de assassinato do Führer, como a “Operação Valkíria”, os blefes de Hitler, a Berlim sitiada, sobre Mussolini, o pacto mútuo de não-agressão entre Hitler e Stalin, igualmente quebrado pelo alemão e que levou à completa derrota da Alemanha ante a ocupação pelas tropas russas de Berlim e o suicídio de Hitler após perceber que não havia outra saída.

Segundo relatos, Hitler havia dito ue tinha medo de ser capturado vivo e exibido em um zoológico de Moscou, temendo fim similar ao de Mussolini, que foi executado e pendurado de cabeça para baixo numa praça pública de Milão. Hitler teria dito em seus momentos finais quando estava no Bunker: “Meus generais me traíram e me venderam, meus soldados não querem mais continuar e eu não posso mais continuar!” (…) “Ficarei de pé ou cairei com Berlim. É preciso ter coragem para sofrer as consequencias dos próprios aos. Pretendo tirar minha vida ainda hoje!”.

Como se percebe, até no final da vida o Fürher se mostrava midiático, porém, sem a coragem suficiente para responder por seus atos em vida, optando pela alternativa covarde de ceifar sua própria vida.

Hans Baur ainda tentou fugir ao cerco russo, porém foi capturado e permaneceu preso por longo período na prisão de Butyrka, Moscou, onde os alemães eram interrogados e torturados.

O piloto de Hitler foi julgado por um tribunal russo em maio de 1950 e condenado por assessorar os crimes cometidos contra o povo soviético e prisioneiros de guerra, sendo condenado a uma pena de 25 anos de prisão num campo de trabalho. Em 1955, porém, teve a notícia de que seria repatriado pelo fato da URSS haver declarado o fim do estado de guerra com a Alemanha.

Retornando para Munique encontrou suas filhas e sua mãe, então com 80 anos. Havia perdido parte de uma perna e foi considerado veterano de guerra ferido, tendo direito a uma pensão vitalícia. Faleceu em 1993, aos 95 anos de idade.

Como se pode perceber, o livro é um verdadeiro mergulho na segunda Guerra Mundial, um grande manual sobre o assunto.

 

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17/6/12

“Idade 21 - Walmor Cardoso da Silva sessenta anos depois”, Artêmio Zanon

MERECIDA HOMENAGEM

Enéas Athanázio

Artemio Zanon, autor de vasta obra, em prosa e verso, prestou uma homenagem tão comovente quanto rara no mundo das letras catarinenses. Como criativo poeta e ex-integrante de nosso Ministério Público, teve a sensibilidade de evocar em esmerado ensaio a figura de outro poeta e também ex-integrante do Ministério Público. Refiro-me a “Idade 21 – Walmor Cardoso da Silva sessenta anos depois” (Editora Secco – Florianópolis – 2011).

Nascido na capital, em 1927, Walmor Cardoso da Silva se integrou ao chamado Grupo Sul, movimento de jovens que se propunha a implantar aqui no Estado os ideais modernistas de 1922 e, ao mesmo tempo, sacudir o marasmo em que se encontrava o meio intelectual. Como bem registra a história, o movimento teve larga repercussão e exerceu influência renovadora em vários campos, tais como o teatro, o cinema, as artes plásticas e, acima de tudo, a literatura. Inúmeros valores novos vieram à tona, dentre eles Walmor Cardoso da Silva, que teve significativa atuação no teatro experimental, secretariou a revista publicada pelo grupo e deu a público numerosos poemas modernistas, tanto na própria revista como em jornais ilhéus.  Teve início então a publicação dos chamados Cadernos Sul, o primeiro dos quais foi justamente “Idade 21”, do próprio Walmor Cardoso da Silva, em 1949, coincidindo o título com a idade do autor na época e também com o número de poemas publicados nele. É sobre essa publicação que incide o ensaio de Zanon, ainda que investigue também outras publicações onde foram estampados poemas e alguns textos em prosa do autor. Numa atitude bastante rara, Walmor Cardoso da Silva, após essa publicação, adotou o silêncio de Rimbaud, ou seja, abandonou para sempre a poética e passou a se dedicar de maneira integral ao Ministério Público e ao magistério superior. Talvez, como aquele pintor, personagem de Érico Veríssimo, tivesse enterrado os pincéis por entender que já havia criado sua obra-prima. Imagino cá com os comigos de mim, como dizia Pessoa, que a crítica negativa e contundente de Salim Miguel possa ter influído na decisão do poeta, espírito tímido e modesto.

Como escreveu Lauro Junkes, incansável pesquisador de nossa literatura, “a poesia de Walmor Cardoso da Silva é decididamente modernista, tanto na forma como na temática. Escreveu sempre em versos livres, brancos, geralmente curtos, não raro constituídos de frases nominais, em construção leve, e direta de parataxe. Os poemas normalmente são breves, de poucos versos, bastante sintéticos. Sua poesia é intensamente lírica, voltada para o eu, embora não deixe de conter reflexão, meditação, afluxo de idéias” (p. 45)  É sobre essa poesia que Zanon se debruça, submetendo a exame cada um dos poemas publicados na plaquette, assim como outros aparecidos em diferentes periódicos. E nesse trabalho analítico revela intensa penetração crítica e inegável erudição, dominando como poucos a teoria poética.

O ensaísta transcreve, na íntegra, todos os poemas que constituíam o opúsculo, permitindo ao leitor um contato direto, o que seria difícil, talvez impossível, em face da raridade de uma publicação tão antiga (pp. 66 a 78). Observa o autor “a presença constante como que de um estado de melancolia” a perpassar nos poemas de “Idade 21” (p. 83). E, pelo que recordo da leitura de outros críticos, esse estado de espírito foi mais ou menos comum nos poetas daquela geração, expresso em suas respectivas obras. Registra ainda o ensaísta que Walmor não desconhece o soneto e que sua produção em verso livre foi de livre opção (p. 100).

Concluindo estas breves notas, direi que o trabalho de Artemio Zanon faz justiça a um grande poeta esquecido e foi elaborado em elevado nível. Com ele, o livro de Walmor Cardoso da Silva retorna e permanece diante dos olhos dos leitores, sessenta anos após sua publicação e quando seu autor conta 81 anos de idade. “E essa permanência, nele e em todos, está a celebrar mais de oitenta e um anos de idade. Daí que se pode dar à vida de Walmor Cardoso da Silva – ao livro da vida – o título de “Idade 81” – conclui o ensaísta (p. 89).

(A resenha acima me foi encaminhada pelo escritor catarinense Enéas Athanázio. É autor de mais de quarenta livros, sendo o último “O Campo no Coração”).

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7/1/12

Resenha: “O Cemitério de Praga”, Umberto Eco

COMPÊNDIO SOBRE FALSIFICAÇÕES E COMPLÔS

 

ECO, Umberto. O Cemitério de Praga, Rio de Janeiro: Ed. Record, 2011, 479 pág. (tradução de Joana Angélica d’Avila Melo).

 

            Não sou de ler os livros que costumam figurar na lista dos mais vendidos, mas confesso que o título do último romance de Umberto Eco despertou a minha atenção. Por ser descendente de tchecos, tudo que diz respeito a esse país da Europa Central me aguça a curiosidade.

            Umberto Eco é um erudito e parte de seus livros, tal como ocorre com seu romance de maior sucesso – O Nome da Rosa -, nos remete há tempos antigos, sem a tecnologia de celulares, sensores de presença, GPS, armas automáticas ou internet. Dentro desse contexto, O Cemitério de Praga conduz o leitor a um passeio pelo período oitocentista, onde o protagonista principal, o único que realmente não existiu, de nome Simone Simonini, interage com figuras do calibre de Dumas e Freud.

            Ainda que o início do livro possa parecer até certo ponto entediante, é necessário para a compreensão da história e a fantástica construção do personagem de Simone Simonini. É no começo da obra que o autor lança impressões sobre os jesuítas, os maços e os judeus, categorias essas que terão papel fundamental no decorrer da trama e no desenrolar dos acontecimentos. Simone Simonini é quem mais desperta a atenção e sua trajetória é contada na forma de um diário, através de notas lançadas por ele e pelo misterioso abade Dalla Piccolla, cuja existência é colocada em dúvida pelo “Narrador”, que em diversos capítulos nos relata acontecimentos que se passaram e que foram relatados por Simone Simonini e Dalla Piccola (duas pessoas ou uma só?) no mesmo diário.

            Como se pode perceber, a trama criada por Umberto Eco nos envolve de tal maneira que fica difícil largar o livro sem saciar a curiosidade do que está por vir.

            Apenas para que o leitor dessa resenha despretensiosa tenha vontade de se aventurar pelas páginas do romance, posso adiantar que durante a trama Simone Simonini, mestre em falsificação de documentos e perito em reproduzir a grafia de terceiros, envolve-se em diversos complôs envolvendo judeus e maçons, conversões religiosas, conspirações, rituais satanistas, mortes, explosões, entre outros eventos, tudo movido por dinheiro e a base de informações falsas e inventadas por solicitação daqueles que buscam o controle de tudo e todos.

            Já quanto ao Cemitério de Praga, basta informar que “graças a certas gravuras mais imaginativas que o retratavam à luz da lua, logo me pareceu claro o partido que eu podia tirar de uma atmosfera de sabá, se, entre aquelas que pareciam lajes de um pavimento soerguidas em todos os sentidos por um abalo telúrico, se dispusessem, curvados, encapotados e encapuzados, com as barbas grisalhas e caprinas, rabinos dedicados a um complô, inclinados também eles como as lápides em que se apoiavam, formado na noite uma floresta de fantasmas crispados.”

            Um livro prazeroso e muito inteligente. Vale a leitura!

 

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12/5/11

Resenha: “Boa Ventura”, Lucas Figueiredo

A RIQUEZA BRASILEIRA E O DESCONTROLE PORTUGUÊS

BOA VENTURA, A CORRIDA DO OURO NO BRASIL (1697 - 1810), Lucas Figueiredo, Ed. Record, 2011, 387 páginas.

Em primoroso trabalho de pesquisa e com uma prosa envolvente, o mineiro Lucas Figueiredo nos apresenta um livro delicioso e repleto de informações. É uma veradeira aula de história, tendo como mote principal a cobiça da Coroa Portuguesa pelo ouro de sua mais lucrativa colônia: Brasil.

Quando Pedro Álvares Cabral chegou as nossas terras, Portugal estava completamente endividada, fazendo uso de empréstimos e venda de títulos da dívida pública para obter recursos financeiros para manutenção da corte. A primeira impressão com o Brasil, porém, não foi das melhores. Somente avistaram índios e estes não trajavam vestimentas com detalhes em ouro, muito pelo contrário, os então donos da terra viviam praticamente nus.

Após alguns investimentos iniciais, nenhum sinal de ouro, frustrando as expectativas portuguesas. Já a Espanha, sua maior inimiga de então, recebia todos as glórias da chamada América Espanhola, em especial do ouro encontrado no Peru e da prata vinda de Potosi.

No entanto, a Coroa Portuguesa mantinha acesas as esperanças de encontrar riquezas e, até mesmo para proteger a costa brasileira de invasões estrangeiras, principalmente holandesas e francesas, passou a distribuir terras e incentivar a exploração do ouro.

É por essa época (1650), que surgem os “Bandeirantes”, sendo Fernão Dias Pais seu maior representante até então. Os Bandeirantes, na incansável busca pelo ouro, foram responsáveis pela formação de vilas e lutavam contra os invasores, tendo, no entanto, contribuído de maneira significativa para a caça e mortandade indígena. Fernão Dias foi um dos responsáveis pela colonização do atual Estado de Minas Gerais.

Com o passar do tempo as lavras auríferas exploradas pelos paulistas na região central de Minas Gerais começaram a dar resultado e, após 200 anos, com a participação decisiva do bandeirante Borba Gato, genro de Fernão Dias, foi apresentada à corte a região onde hoje se encontra a cidade de Sabará (MG), chamada então de “Sabarabuçu”. Segundo Lucas Figueiredo, que narra com detalhes toda essa sequencia de acontecimentos, “Portugal havia encontrado seu Eldorado”.

Com a descoberta do ouro se dá inicio à “Primeira Corrida do Ouro da Era Moderna”. O ouro da região parecia brotar do chão, atraindo toda sorte de viventes ao local. Não tardou para os paulistas começarem a perder espaço para baianos, portugueses e fluminenses, chamados de “emboabas”, que buscavam as lavras de Minas Gerais em busca de riqueza.

Esses emboabas, no entanto, tinham relações estreitas com o comércio de escravos africanos, os quais se mostravam mais produtivos que os índios, estes rebeldes e indomesticáveis. Não tardou para que surgissem os conflitos entre paulistas e emboabas.

Independente a isso, a Coroa recebia regularmente parte do ouro encontrado em sua Colônia. O chamado “quinto”, apesar de difícil controle, chegava sem dificuldade alguma para a família real. Em 1741 Portugal chegou a receber 11,5 toneladas de ouro sem que tenha feito qualquer esforço.

A Corte Portuguesa, por sua vez, demonstrou em todo o curso da extração aurífera uma incompetência absoluta na administração da riqueza. Tratava-se de uma corte perdulária e despreocupada, mais interessada em ostentar fortuna do que cuidar do povo e do País. Conforme destaca o autor, “a inoperância administrativa do rei deixava a indústria em estado de abandono, as terras, incultas, e o comércio, nas mãos de estrangeiros.” Portugal julgava que as extração do ouro no Brasil seria eterna!

Porém, os ventos sopravam a favor da Corte, sendo localizado novas regiões auríferas em Cuiabá e, afora isso, a exploração do diamente também passou a encher as burras da família real.

Em 1745 Minas Gerais era o maior centro urbano da colônia, superando a Bahia e o Rio de Janeiro. A região de Vila Rica, atual Ouro Preto, movia a economia. Igrejas e demais construções arquitetônicas eram construídas. As artes plásticas, a música e a literatura igualmente se desenvolviam em Minas Gerais. Esse crescimento acabou por gerar uma maior união entre as capitanias, contribuindo para a formação de uma unidade nacional.

Essa maior integração acabou por resultar no crescimento do território da colônia, cuja “insistente violação e ocupação das terras da América Espanhola se monstrou um bom negócio para Portugal” (pág. 246). Assim, quando da redefinição das fronteiras pertencentes à Espanha e Portugal, estipuladas pelo Tratado de Tordesilhas, com o novo Tratado de Madri, firmado em 1750, o Brasil triplicou seu território, posto que vencedora a tese do “uti possidetis”, ou seja, a posse de direito seria daquele que detinha a posse de fato.

Em outro capítulo de grande importância no seu livro, Lucas Figueiredo aborda a questão escravocrata. Suas considerações merecem especial atenção e retratam um período sangrento do Brasil, quando pessoas eram tratadas como animais. Os escravos, vindos do continente africano, eram trazidos em condições subumanas. Seus laços familiares eram rompidos de forma abrupta e comunidades inteiras eram desmanteladas para evitar levantes contra os “brancos”. Muitos morriam doentes, outros fogiam e alguns compravam a própria alforria comprando a ”liberdade” com o ouro que obtinham trabalhando aos domingos, único dia de folga na semana. O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão e isso ocorreu mais por pressões internacionais do que pela vontade da classe dominante. Um passado triste, porém vivo até hoje.

Em 1755 Portugal é abalada por um forte terremoto, seguido de maremoto e incêndios. Nesse momento a importância da colônia passa a ser maior ainda, cujo ouro se faz necessário para a reconstrução do País. Como a corte era perdulária, especialmente pela prodigiosidade de seus reis, tendo D. João I se destacado nesse quesito, não haviam reservas e a Coroa Portuguesa passou a sofrer por sua irresponsabilidade financeira.

Não bastasse esse problema, a partir de 1760 as lavras auríferas, especialmente de aluvião, começam a se esgotar. A Corte, no entanto, parece não se dar conta disso e continua gastando de forma inveterada. Um exemplo disso foi o casamento do então infante D. João (filho da rainha D. Maria I, futuro D. João VI), com a princesa espanhola Carlota Joaquina, uma das mulheres mais feia que já pisou em terras brasileiras.

Continuando em seu primoroso trabalho de pesquisa, Lucas Figueiredo passa a narrar as dificuldades da colônia em mandar para Portugal a quantidade de ouro solicitada, deixando de pagar a cota mínima do “Quinto”, que era de 1.474 quilos. Com isso foi instituída a chamada “Derrama”, onde se passou a exigir maior imposto sobre a posse dos escravos e transações comerciais, bem como pedágio nas estradas. Os homens da Coroa ainda podiam entrar na residência dos colonos para confiscar bens, socorrendo-se muitas vezes da própria força física. Isso, logicamente, gerou protestos, dando início a conhecida “Inconfidência Mineira”, onde os “conjurados”, buscavam livrar a capitania de Minas Gerais do jugo português. Essa revolta, no entanto, tinha mais um caráter econômico que social, sendo que a “derrama” somente foi cancelada após o martírio de Tiradentes.

Quando D. João VI assumiu o reinado na condição de “príncipe regente” (sua mãe foi declarada insana), o ouro estava cada vez mais escasso e, para complicar ainda mais a vida de Portugal, Napoleão surgia a sua frente.

Como Portugal tinha na Inglaterra uma grande aliada, esta ofereceu proteção para a Coroa fugir ao Brasil em 29/11/1807, levando com ela todo o ouro que podia.

Assim, no início do século XIX praticamente não havia mais ouro que pudesse ser extraído no Brasil, pelo menos com os métodos e a engenharia da época. Se Portugal tivesse a prudência da Inglaterra, por exemplo, e não gastasse de forma inconsequente a riqueza que chegava do Brasil, certamente seria hoje um dos países mais ricos do mundo, estando longe da grave crise econômica que o afeta nos dias atuais. Como já é sabido, temos que conhecer o passado para entender o presente e nos prevenir para o futuro. Portugal não foi diligente, sugou e torrou o ouro fácil que recebia de sua colônia. Hoje paga o preço de sua ineficiência administrativa.

Como o leitor dessa resenha pode perceber, todo o livro está contado no presente texto, todavia, a riqueza de detalhes abordada pelo autor durante sua narrativa é fantástica, cuja leitura nos envolve do início ao fim. A escrita é objetiva e clara. Os fatos são narrados de forma compreensível até para aqueles que desconhecem por completo a história do Brasil. O livro ainda é rico em ilustrações e possui excelente acabamento.

Com extensa bibliografia consultada, trata-se de leitura obrigatória para aqueles que procuram conhecer e entender um pouco mais do nosso lindo e espoliado Brasil!

(Obs.: para conhecer um pouco mais do autor vale a pena visitar o seu blog: http://lfigueiredo.wordpress.com/)

 

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18/1/11

Resenha: “O Charuto de Churchill”, Stephen McGinty

O PODER DA FUMAÇA

 

O CHARUTO DE CHURCHILL, Stephen McGinty, Ed. Record, 2010, 207 p. (tradução de Marcia Frazão).

 

Sempre que se fala em charutos, logo vem à lembrança a imagem de Fidel Castro e Che Guevara, porém, de todos os apreciadores, ninguém se identificou tanto com ele como Winston Churchill.

 

Divertido e de ótima presença de espírito, Churchill foi o comandante das forças aliadas contra o eixo durante a II Guerra Mundial. Sua postura firme e inteligência privilegiada, lhe renderam as glórias de ter derrotado o Führer. Brilhante político, escritor (recebeu o prêmio Nobel), jornalista e pintor, era sempre visto com o seu inseparável charuto.

 

Através de “O Charuto de Churchill”, o jornalista britânico Stephen McGinty traça a vida desse estadista de um posto de vista inusitado. Em uma linguagem clara e objetiva, inicia o livro falando sobre a história do charuto - sua forma de colheita, os tipos de tabaco, a produção artesanal - para, lentamente, interligá-lo a biografia de Churchill.

 

Como diz o autor, “guerra, charutos e uma cochilada à tarde estavam para se tornar elementos fundamentais na vida de Churchill”, estando o democrata imglês sempre envolvido com batalhas políticas e fumaça. Nesse particular, McGinty relata em seu livro: “O charuto funcionava como uma espécie de cata-vento; com seu temperamento intempestivo, podia ser casualmente retirado da boca e ondulado no ar para amenizar o clima ou, quando ele estava particularmente enfurecido, usado para dar uma ordem ou comando berrado com o charuto ainda preso enre os dentes. Nos encontros políticos ele os utilizava como uma forma eficaz de não prestar atenção no interlocutor com o qual não concordava. Nessas ocasiões Churchil se valia de toda sua habilidade no preparo de charutos, acendia seguidamente fósforos e depois soltava uma baforada, às vezes forçando o interlocutor a fazer uma pausa até acabar o ritual.”

 

Não se sabe ao certo quantos charutos fumaça por dia, mas se acredita que variavam de 5 a 10 unidades. Não fumava apenas de uma marca, porém preferia os cubanos da empresa Romeo y Julieta, hoje conhecida mundialmente e produtora de um tipo de charuto grande que leva o seu nome.

 

Falando em Cuba, por diversas vezes Churchill esteve na ilha caribenha, sendo presenteado por todas as marcas de charutos, ansiosas por ter sua imagem vinculada ao primeiro ministro inglês. Churchill nunca deixou de promover os charutos cubanos, tendo dito a um jornalista que “Cuba sempre estará em meus lábios.”

 

Na condição de estrela e sempre bem recebido por onde passava, era frequentemente presenteado com charutos, sendo que durante a II Guerra Mundial o temor de que fosse envenenado levou o governo britânico a solicitar os serviços de um especialista bacteriológico da Inteligência Militar, Dr. Roche Lynch, a fim de verificar se os diversos charutos recebidos continham ou não substâncias nocivas ou letais. Esse fato levou Churchill a ter fornecedores de confiança dos charutos cubanos, sendo Antonio Giraudier o maior deles.

 

O livro ainda relata diferenças existentes entre Hitler e Churchill, o primeiro vegetariano, antitabagista, “que via o próprio corpo como um templo sagrado ao mesmo tempo que reduzia o dos outros a cinzas”, cuja imagem constrasta com a do segundo, que, em resposta ao general Montgomery, que compartilhava de idéias e hábitos naturais, disse: “Bebo demais, durmo muito pouco e fumo um charuto atrás do outro. É por isso que estou 200% saudável.”

 

Churchill não fumava cigarros, apenas charutos. Durou até os 90 anos de idade, privilegiado por uma excelente saúde que lhe permitiu fumar durante aproximadamente 75 anos.

 

Viveu em um tempo onde se podia fumar em qualquer lugar. Se vivesse hoje não poderia gozar impunemente de seu prazer!

 

criado por Cristian Luis Hruschka    20:04:15 — Arquivado em: Sem categoria

9/1/11

Resenha: “O Mapa do Tempo”, Felix J. Palma

O ETERNO SONHO DE CRUZAR A LINHA TEMPORAL

O MAPA DO TEMPO, Felix J. Palma, Ed. Instrísica, 2010, 470 p. (tradução de Paulina Watch e Ari Roitman)

Não é recente a vontade do homem de cruzar a linha do tempo. A possibilidade de viajar para épocas passadas e visitar o futuro é instigante, porém seus efeitos podem ser avassaladores. Trata-se, porém, de uma realidade impossível de acontecer, valendo apenas para inundar de fantasia e sonhos os pobres habitantes desse planeta terra. Porém, nada melhor do que esse tema para encher a imaginação de um universo cada vez maior de pessoas, todas na esperança de que um dia isso de torne possível.

É sobre esse assunto que o escritor espanhol Felix J. Palma nos brinda com seu excelente romance “O Mapa do Tempo”.

Aproveitando a onda de livros de ficção que carregam obras literárias de reconhecimento universal para nortear seus romances, Felix Palma se apoia no livro “A Máquina do Tempo”, do escritor inglês H. G. Wells (1866 - 1946), originalmente publicada em 1895, para criar uma rede de acontecimentos que permeia toda a trama e prende a atenção do leitor do início ao fim.

Transportando H. G. Wells para as páginas de seu romance, o espanhol consegue desenvolver um texto de prosa objetiva e clara, fugindo de lugares comuns e ressaltada pela tradução efetuada por Paulina Wacht e Ari Roitman.

Na trama, que transcorre no ano de 1896, um empresário chamado Gillian Murray promete viagens temporais para os corajosos que quiserem se aventurar até o ano 2000, mais precisamente até o dia 20 de maio, e testemunharem a revolta dos humanos, comandados pelo charmoso capitão Derek Shackleton, contra os autônomos, devolvendo-lhes um mundo que havia sido tomado pelas máquinas.

Por mais que o leitor no correr do livro possa desconfiar da possibilidade real de viajar no tempo, o autor conduz o enredo de forma tão firme e convincente que não é possível largar o livro. Como ocorre em todo bom romance, ainda mais envolvendo ficção científica, a trama é apimentada por inúmeras reviravoltas e desdobramentos por diversas vezes imprevisíveis.

Outro detalhe importante do livro é que o leitor não consegue descobrir (somente no final da leitura), qual é o personagem principal do enredo: o apaixonado Andrew Harrington, a deslumbrada Claire Haggerty, o visionário e ambicioso Gillian Murray ou o próprio H. G. Wells.

O autor, por sua vez, narra a trama de forma despretenciosa e divertida, como se estivesse vendo os acontecimentos em todas as suas épocas e acompanhando todos os personagens.

Em um cuidadoso e inteligente trabalho, Palma cria soluções para todos os problemas que são apresentados na trama, sendo o final surpreendente. Através de seu “O Mapa do Tempo”, ele nos leva a refletir sobre os riscos e consequencias da possibilidade de viajarmos ao passado e darmos uma olhadinha no futuro. Quem resistiria a não modificar o que fez de errado ou mudar o presente para ter um futuro diferente daquele previamente visitado? Ainda bem que isso não é possível e nunca será! Cada um que viva a sua vida e cuide do hoje para ter um excelente amanhã.

O livro é espetacular. Dentre os lançados no Brasil, está entre os melhores de 2010.

criado por Cristian Luis Hruschka    23:17:14 — Arquivado em: Sem categoria

22/11/10

Resenha: “Cartas do Everest”, Airton Ortiz

SUBIDA AO TOPO DO MUNDO

CARTAS DO EVEREST, Airton Ortiz, Rio de Janeiro: Ed. Record, 2008.

Lançado em 2008, o livro “Cartas do Everest” é a única obra ficcional do escritor gaúcho Airton Ortiz. Mais conhecido por seus livros de reportagem e precursor do gênero “jornalismo de aventura”, Ortiz lançou pela Editora Record livros de sucesso como “Em Busca do Mundo Maia”, “Na Trilha da Humanidade”, “Na Estrada do Everest” e “Cruzando a Última Fronteira”, todos integrantes da coleção “Viagens Radicais”. Neles são relatadas as aventuras do escritor pelo mundo, desbravando lugares exóticos em meio a natureza.

“Cartas do Everest” relata a tentativa de Claudio Adônis Montenegro, na companhia de mais dois alpinistas, um americano e outro alemão, em conquistar o cume da montanha mais alta do planeta.

Os capítulos são intercalados entre cartas e fragmentos do diário de Cláudio, onde o leitor pode acompanhar suas adversidades e a beleza encontrada pelo caminho. São abordados, ainda, conflitos emocionais e inerentes à natureza humana:

“Para ter sucesso é preciso estar motivado. Se a motivação for excessiva, é provável que se morra. Há uma febre que costuma atingir os aplinistas menos experientes, a Febre do Cume. Quando uma pessoa está muito perto de alcançar o objetivo, especialmente após um esforço físico penoso, sente uma grande euforia capaz de cegar os olhos para os riscos e, simplesmente, seguir em frente.

Não saber a hora de parar, respirar, analisar com calma e, se preciso for, voltar, pode ser o fim. Não só no alpinismo como em todas as circunstâncias da vida. O excesso de autoconfiança, como todos os excessos, pode matar. Lições que valem por uma vida, quer seja no mar ou na terra.”

O sentimento de companheirismo, luta e conquista são relatados de maneira bastante exaustiva, notando-se que o autor procura passar ao personagem emoções já vividas por ele. Todavia, diversamente de seus livros jornalísticos, “Cartas do Everest” não consegue prender o leitor de forma tão apaixonada, face a dificuldade de impor à obra sentimentos e emoções tão íntimas aos aventureiros, sem falar na riqueza de detalhes e informações que a pesquisa para um texto jornalístico e de reportagem exigem.

Em outubro passado o autor lançou “Havana” (Ed. Record), integrante da coleção “Expedições Urbanas”, retomando com vigor sua veia jornalística, ainda que em forma de crônicas. Busca, assim, voltar ao seu melhor estilo.

criado por Cristian Luis Hruschka    21:59:55 — Arquivado em: Sem categoria

9/11/10

Resenha: “O Jogador”, Fiodor Dostoievski

O VÍCIO DO JOGO

O JOGADOR, Fiodor Mikailovitch Dostoievski, Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 1987 (tradução: Moacir Werneck de Castro).

Nascido em 11 de novembro de 1821, na fria cidade de Moscou, Rússia, Fiodor Dostoievski é mais conhecido por suas obras “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamazov”. Escritor dos mais respeitados, figura sempre ao lado de grandes mestres da literatura como Cervantes, Proust e Flaubert.

Maior representante da literatura russa, a partir de 1844 passou a se dedicar com esclusividade a literatura, procurando viver da venda de seus livros e de traduções. Como a literatura tinha um público mais selecionado e escasso, não demorou para contrair dívidas, fato que foi agravado por problemas de saúde. Para complicar sua vida, foi preso e exilado na Sibéria em 1849.

Como todo bom escritor, teve uma vida movimentada, sempre atento a todos os detalhes que passavam a sua frente. Nesse contexto, Dostoievski absorveu os conflitos humanos e sociais, fatores que foram predominantes para a construção de seus personagens, sempre entrelaçados em conflitos psicológicos e morais.

O livro “O Jogador” foi escrito em 1867 e reflete, em parte, a vida do próprio autor. Dostoiveski, assim como o personagem principal da trama, Alexei Ivanovich, gostava de jogar. No livro, porém, o jogo é uma compulsão, tratado de forma doentia.

O protagonista não dá ouvidos aqueles que procuram controlar sua insaciedade pelo dinheiro, mantendo-se firme em seus propósitos mesquinhos. Ganha fortunas mas em pouco tempo perde o dinheiro obtido, levando ao leitor a sentir-se irritado com Alexei e mandá-lo parar de se arriscar. Como no jogo quem sempre ganha é o dono da banca, não preciso me estender para que possam prever o final, porém, a leitura se torna ainda mais interessante com esse detalhe sórdido, até mesmo para que possamos entrar no universo criado pelo escritor russo e contemplar com riqueza de detalhes a vida da burguesia da época e o modo como os espertinhos de plantão circulavam entre a nobreza.

Paralelo a tudo isso Alexei vive uma conturbada relação de amor e ódio com Paulina Alexandrovna, cuja paixão por ela e o vício compulsivo pelo jogo lhe consomem.

Vale a leitura desse pequena obra-prima, a qual foi ditada por Dostoievski para estenógrafa Anna Grigórievna Snítkina, sua futura esposa, em apenas vinte e seis dias, dentro do exíguo prazo determinado por seu editor. Aentrega do livro lhe rendeu uns bons trocados para aplacar a ira de seus credores e viajar pela Europa a procura de um pouco de tranquilidade.

Dostoievski faleceu em São Petesburgo, Rússia, no dia 9 de fevereiro de 1881, com então 59 anos de idade.

criado por Cristian Luis Hruschka    00:42:25 — Arquivado em: Sem categoria

24/11/09

Resenha: “A Vida Real”, Fernando Sabino

SABINO EM SONHO

A VIDA REAL, Fernando Sabino, 2ª. ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1963, 209 pág.

Acabo de ler “A Vida Real”, do escritor mineiro, morto em 2004, Fernando Sabino.

Meu exemplar, particularmente, é guardado com carinho. Adquirido em um sebo, é o livro nº. 3975 da 2ª. edição (out/1963) - a primeira teve apenas 500 exemplares e foi lançada em 1952, quatro anos após Sabino regressar ao Brasil de Nova York (dessa permanência resultou o livro “A Cidade Vazia”).

“A Vida Real” é composta de cinco novelas, tendo como tema central “a emoção vivida durante o sono”. Diferente do que ocorre em diversos outros de seus livros, Fernando Sabino não procura narrar situações do cotidiano, optando por abordar questões subjetivas e dramas pessoais passados pelas personagens.

O estilo claro, limpo e objetivo, característico dos textos de Sabino está presente, garatindo uma leitura agradável e ágil.

Vale a leitura para conhecer um outro lado do autor, o lado da imaginação e da ilusão.

criado por Cristian Luis Hruschka    09:07:27 — Arquivado em: Sem categoria

Resenha: “Jubiabá de Jorge Amado”, Spacca

JUBIABÁ, POR SPACCA
Jubiabá/Jorge Amado: adaptação e desenhos de Spacca, São Paulo: Cia. das Letras, 2009, 95 pág.

Já conhecido por outros trabalhos, notadamente “Santô”, sobre Santos-Dumont, e “D. João Carioca”, sobre a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil, Spacca se apresenta como um dos mais conceituados e premiados quadrinistas do País.

O livro “Jubiabá”, do baiano Jorge Amado, escrito entre os anos de 1934 e 1935, foi por Spacca adaptado e ilustrado no formato de História em Quadrinhos (HQ). Conta a trajetória de Antônio Balduíno, o Baldo, que nasceu na pobreza da cidade de Salvador (BA), e era protegido de Jubiabá, seu pai-de-santo. Malandro desde pequeno, foi acolhido por uma família de posses mas não se endireitou. Preferia a malandragem, a vida nas ruas, local onde tinha amigos. Foi boxeador, trabalhou em plantação de fumo, atuou como artista de circo e por fim estivador, tendo inclusive comandado uma greve no porto. Mulherengo, gostava de um rabo de saia, tendo um amor contido por Lindinalva, filha do comendador que o havia acolhido e que, por ironia do destino, acabou tendo um fim trágico.

Em “Jubiabá”, Jorge Amado apresenta sua ideologia política, consubstanciada nas dificuldades sofridas pelas classes minoritárias, subjugadas pelos ricos e poderosos.  Esse aspecto é bem abordado por Spacca em suas ilustrações, sempre coloridas e com riqueza de detalhes.
Inconteste que para adaptar um livro de tamanha grandeza para HQ, Spacca se obrigou a conhecer profundamente a obra, as características de cada personagem e a Salvador dos anos 20. Para isso viajou para lá onde pode pesquisar a arquitetura e costumes da época.
O resultado é apresentado pela “Quadrinhos na Cia.”, novo selo da Companhia das Letras. Para maiores informações, vale consultar o blog http://jubiaba.blogspot.com/, mantido pelo próprio Spacca, onde o leitor poderá conferir todo o processo de produção do livro, o qual levou um ano e meio para ficar pronto.
criado por Cristian Luis Hruschka    09:03:16 — Arquivado em: Sem categoria

Resenha: “A Máquina de Xadrez”, Robert Löhr

O AUTÔMATO ENXADRISTA
A MÁQUINA DE XADREZ, Robert Löhr, Rio de Janeiro: Ed. Record, 406 pág.
Baseado numa história real, o escritor alemão Robert Lörh nos apresenta, em seu romance de estréia, um livro cercado de mistérios, surpresas e muito humor.

O enredo circula em torno do famoso invento do barão Wolfgang von Kempelen, que no século XVIII encantou a aristocracia do Império Austro-Húngaro com seu autômato vestido de turco e que jogava xadrez. O invento não passava de uma grande farsa, sendo que dentro da máquina estava escondido o anão Tibor Scandanellli, exímio enxadrista.

Kempelen, gozando de alto prestígio junto a sociedade, promovia disputas e organizava desafios pelo império, fazendo sombra às ilusões proporcionadas pelo francês Jean Pelletier, expert em magnetismo.

Não tardou para que o astuto anão Tibor se revoltasse contra o criador da máquina de xadrez, posto que era responsável por toda a precisão das jogadas e nunca aparecia em público, longe dos banquetes e homenagens, sempre estando apertado e suando dentro de uma máquina cuja iluminação era proporcionada por singelas velas. Entre discussões e promessas, inesperadamente aparece morta, em circunstâncias misteriosas, uma bela aristocrata, não tardando a recaírem sobre o autômato todas as suspeitas.

Como o leitor pode perceber, o livro é delicioso do início ao fim. A leitura segue fácil e todas as características da época são apresentadas com primor por Robert Löhr.

Apesar de Kempelen ser o inventor da máquina, Tibor Scandanelli é a personagem que mais fascina na narrativa. Dono de uma habilidade incontestável, perito em movimentar bispos, torres e cavalos, o anão ainda consegue ter um romance proibido e ser o centro de intrigas e mistérios. Ótima leitura!

criado por Cristian Luis Hruschka    09:01:09 — Arquivado em: Sem categoria

Resenha: “O Leitor”, Bernard Schmitz

O SEGREDO DE HANNA SCHMITZ

O LEITOR, Bernard Schlink, Rio de Janeiro: Ed. Record, 2009, 239 pág.

Sempre que um livro vai para as telas do cinema somos tentados a ver o filme e deixar o livro de lado. Com “O Leitor”, de Bernard Schlink, fiz diferente. A trama já havia me chamado a atenção e não posso negar que vi na personagem de Hanna Schmitz a atriz Kate Winslet.

O livro, porém, é muito bom e mereceu o belo trabalho de Stephen Daldry na direção do filme, o qual assisti uma semana após terminar a leitura e confesso que fiquei fascinado. Os sons, as expressões faciais, o jogo de luzes, de imagens, de emoções, envolvem o telespectador deixando-o participar do enredo. Quem ainda não viu o filme que leia o livro antes, irá se surpreender.

“O Leitor” conta o envolvimento de um jovem rapaz com uma mulher adulta. Os dois passam a viver um tórrido romance cujas marcas seguirão Michael Berg pelo resto de sua vida. A mulher, porém, esconde um segredo e o casal se separa para, no futuro, o jovem encontrá-la na condição de ré em um julgamento referente crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial. O que ocorre após sua condenação, fundada no segredo que prefere guardar à ser exposta vexatoriamente ao olhos de todos, é uma criteriosa junção das considerações lançadas nos capítulos iniciais, em perfeita sintonia, mas que não chegam a surpreender o leitor atento que pode deduzir o destino final que o autor dá à personagem de Hanna Schmitz.

Bernard Schlink, porém, consegue manter em toda a narrativa seu poder de persuasão, deixando o leitor atento e curioso com os desdobramentos que estão por vir. Aliás, o autor é professor de Filosofia e Direito da Universidade de Humboldt, fato que justifica o caráter filosófico de diversas passagens do livro, as quais não são abordadas por completo no filme até mesmo em razão da subjetividade que as norteia.

Ao lado de “O Perfume”, de Patrick Suskind, que também foi adaptado para o cinema, é um dos livros mais traduzidos da literatura alemã. Não assista o filme sem antes tê-lo lido.

criado por Cristian Luis Hruschka    08:59:26 — Arquivado em: Sem categoria
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