Resenha: “O Cemitério de Praga”, Umberto Eco

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 07-01-2012

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COMPÊNDIO SOBRE FALSIFICAÇÕES E COMPLÔS

 

ECO, Umberto. O Cemitério de Praga, Rio de Janeiro: Ed. Record, 2011, 479 pág. (tradução de Joana Angélica d’Avila Melo).

 

            Não sou de ler os livros que costumam figurar na lista dos mais vendidos, mas confesso que o título do último romance de Umberto Eco despertou a minha atenção. Por ser descendente de tchecos, tudo que diz respeito a esse país da Europa Central me aguça a curiosidade.

            Umberto Eco é um erudito e parte de seus livros, tal como ocorre com seu romance de maior sucesso – O Nome da Rosa -, nos remete há tempos antigos, sem a tecnologia de celulares, sensores de presença, GPS, armas automáticas ou internet. Dentro desse contexto, O Cemitério de Praga conduz o leitor a um passeio pelo período oitocentista, onde o protagonista principal, o único que realmente não existiu, de nome Simone Simonini, interage com figuras do calibre de Dumas e Freud.

            Ainda que o início do livro possa parecer até certo ponto entediante, é necessário para a compreensão da história e a fantástica construção do personagem de Simone Simonini. É no começo da obra que o autor lança impressões sobre os jesuítas, os maços e os judeus, categorias essas que terão papel fundamental no decorrer da trama e no desenrolar dos acontecimentos. Simone Simonini é quem mais desperta a atenção e sua trajetória é contada na forma de um diário, através de notas lançadas por ele e pelo misterioso abade Dalla Piccolla, cuja existência é colocada em dúvida pelo “Narrador”, que em diversos capítulos nos relata acontecimentos que se passaram e que foram relatados por Simone Simonini e Dalla Piccola (duas pessoas ou uma só?) no mesmo diário.

            Como se pode perceber, a trama criada por Umberto Eco nos envolve de tal maneira que fica difícil largar o livro sem saciar a curiosidade do que está por vir.

            Apenas para que o leitor dessa resenha despretensiosa tenha vontade de se aventurar pelas páginas do romance, posso adiantar que durante a trama Simone Simonini, mestre em falsificação de documentos e perito em reproduzir a grafia de terceiros, envolve-se em diversos complôs envolvendo judeus e maçons, conversões religiosas, conspirações, rituais satanistas, mortes, explosões, entre outros eventos, tudo movido por dinheiro e a base de informações falsas e inventadas por solicitação daqueles que buscam o controle de tudo e todos.

            Já quanto ao Cemitério de Praga, basta informar que “graças a certas gravuras mais imaginativas que o retratavam à luz da lua, logo me pareceu claro o partido que eu podia tirar de uma atmosfera de sabá, se, entre aquelas que pareciam lajes de um pavimento soerguidas em todos os sentidos por um abalo telúrico, se dispusessem, curvados, encapotados e encapuzados, com as barbas grisalhas e caprinas, rabinos dedicados a um complô, inclinados também eles como as lápides em que se apoiavam, formado na noite uma floresta de fantasmas crispados.”

            Um livro prazeroso e muito inteligente. Vale a leitura!

 

Resenha: “Boa Ventura”, Lucas Figueiredo

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 12-05-2011

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A RIQUEZA BRASILEIRA E O DESCONTROLE PORTUGUÊS

BOA VENTURA, A CORRIDA DO OURO NO BRASIL (1697 - 1810), Lucas Figueiredo, Ed. Record, 2011, 387 páginas.

Em primoroso trabalho de pesquisa e com uma prosa envolvente, o mineiro Lucas Figueiredo nos apresenta um livro delicioso e repleto de informações. É uma veradeira aula de história, tendo como mote principal a cobiça da Coroa Portuguesa pelo ouro de sua mais lucrativa colônia: Brasil.

Quando Pedro Álvares Cabral chegou as nossas terras, Portugal estava completamente endividada, fazendo uso de empréstimos e venda de títulos da dívida pública para obter recursos financeiros para manutenção da corte. A primeira impressão com o Brasil, porém, não foi das melhores. Somente avistaram índios e estes não trajavam vestimentas com detalhes em ouro, muito pelo contrário, os então donos da terra viviam praticamente nus.

Após alguns investimentos iniciais, nenhum sinal de ouro, frustrando as expectativas portuguesas. Já a Espanha, sua maior inimiga de então, recebia todos as glórias da chamada América Espanhola, em especial do ouro encontrado no Peru e da prata vinda de Potosi.

No entanto, a Coroa Portuguesa mantinha acesas as esperanças de encontrar riquezas e, até mesmo para proteger a costa brasileira de invasões estrangeiras, principalmente holandesas e francesas, passou a distribuir terras e incentivar a exploração do ouro.

É por essa época (1650), que surgem os “Bandeirantes”, sendo Fernão Dias Pais seu maior representante até então. Os Bandeirantes, na incansável busca pelo ouro, foram responsáveis pela formação de vilas e lutavam contra os invasores, tendo, no entanto, contribuído de maneira significativa para a caça e mortandade indígena. Fernão Dias foi um dos responsáveis pela colonização do atual Estado de Minas Gerais.

Com o passar do tempo as lavras auríferas exploradas pelos paulistas na região central de Minas Gerais começaram a dar resultado e, após 200 anos, com a participação decisiva do bandeirante Borba Gato, genro de Fernão Dias, foi apresentada à corte a região onde hoje se encontra a cidade de Sabará (MG), chamada então de “Sabarabuçu”. Segundo Lucas Figueiredo, que narra com detalhes toda essa sequencia de acontecimentos, “Portugal havia encontrado seu Eldorado”.

Com a descoberta do ouro se dá inicio à “Primeira Corrida do Ouro da Era Moderna”. O ouro da região parecia brotar do chão, atraindo toda sorte de viventes ao local. Não tardou para os paulistas começarem a perder espaço para baianos, portugueses e fluminenses, chamados de “emboabas”, que buscavam as lavras de Minas Gerais em busca de riqueza.

Esses emboabas, no entanto, tinham relações estreitas com o comércio de escravos africanos, os quais se mostravam mais produtivos que os índios, estes rebeldes e indomesticáveis. Não tardou para que surgissem os conflitos entre paulistas e emboabas.

Independente a isso, a Coroa recebia regularmente parte do ouro encontrado em sua Colônia. O chamado “quinto”, apesar de difícil controle, chegava sem dificuldade alguma para a família real. Em 1741 Portugal chegou a receber 11,5 toneladas de ouro sem que tenha feito qualquer esforço.

A Corte Portuguesa, por sua vez, demonstrou em todo o curso da extração aurífera uma incompetência absoluta na administração da riqueza. Tratava-se de uma corte perdulária e despreocupada, mais interessada em ostentar fortuna do que cuidar do povo e do País. Conforme destaca o autor, “a inoperância administrativa do rei deixava a indústria em estado de abandono, as terras, incultas, e o comércio, nas mãos de estrangeiros.” Portugal julgava que as extração do ouro no Brasil seria eterna!

Porém, os ventos sopravam a favor da Corte, sendo localizado novas regiões auríferas em Cuiabá e, afora isso, a exploração do diamente também passou a encher as burras da família real.

Em 1745 Minas Gerais era o maior centro urbano da colônia, superando a Bahia e o Rio de Janeiro. A região de Vila Rica, atual Ouro Preto, movia a economia. Igrejas e demais construções arquitetônicas eram construídas. As artes plásticas, a música e a literatura igualmente se desenvolviam em Minas Gerais. Esse crescimento acabou por gerar uma maior união entre as capitanias, contribuindo para a formação de uma unidade nacional.

Essa maior integração acabou por resultar no crescimento do território da colônia, cuja “insistente violação e ocupação das terras da América Espanhola se monstrou um bom negócio para Portugal” (pág. 246). Assim, quando da redefinição das fronteiras pertencentes à Espanha e Portugal, estipuladas pelo Tratado de Tordesilhas, com o novo Tratado de Madri, firmado em 1750, o Brasil triplicou seu território, posto que vencedora a tese do “uti possidetis”, ou seja, a posse de direito seria daquele que detinha a posse de fato.

Em outro capítulo de grande importância no seu livro, Lucas Figueiredo aborda a questão escravocrata. Suas considerações merecem especial atenção e retratam um período sangrento do Brasil, quando pessoas eram tratadas como animais. Os escravos, vindos do continente africano, eram trazidos em condições subumanas. Seus laços familiares eram rompidos de forma abrupta e comunidades inteiras eram desmanteladas para evitar levantes contra os “brancos”. Muitos morriam doentes, outros fogiam e alguns compravam a própria alforria comprando a ”liberdade” com o ouro que obtinham trabalhando aos domingos, único dia de folga na semana. O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão e isso ocorreu mais por pressões internacionais do que pela vontade da classe dominante. Um passado triste, porém vivo até hoje.

Em 1755 Portugal é abalada por um forte terremoto, seguido de maremoto e incêndios. Nesse momento a importância da colônia passa a ser maior ainda, cujo ouro se faz necessário para a reconstrução do País. Como a corte era perdulária, especialmente pela prodigiosidade de seus reis, tendo D. João I se destacado nesse quesito, não haviam reservas e a Coroa Portuguesa passou a sofrer por sua irresponsabilidade financeira.

Não bastasse esse problema, a partir de 1760 as lavras auríferas, especialmente de aluvião, começam a se esgotar. A Corte, no entanto, parece não se dar conta disso e continua gastando de forma inveterada. Um exemplo disso foi o casamento do então infante D. João (filho da rainha D. Maria I, futuro D. João VI), com a princesa espanhola Carlota Joaquina, uma das mulheres mais feia que já pisou em terras brasileiras.

Continuando em seu primoroso trabalho de pesquisa, Lucas Figueiredo passa a narrar as dificuldades da colônia em mandar para Portugal a quantidade de ouro solicitada, deixando de pagar a cota mínima do “Quinto”, que era de 1.474 quilos. Com isso foi instituída a chamada “Derrama”, onde se passou a exigir maior imposto sobre a posse dos escravos e transações comerciais, bem como pedágio nas estradas. Os homens da Coroa ainda podiam entrar na residência dos colonos para confiscar bens, socorrendo-se muitas vezes da própria força física. Isso, logicamente, gerou protestos, dando início a conhecida “Inconfidência Mineira”, onde os “conjurados”, buscavam livrar a capitania de Minas Gerais do jugo português. Essa revolta, no entanto, tinha mais um caráter econômico que social, sendo que a “derrama” somente foi cancelada após o martírio de Tiradentes.

Quando D. João VI assumiu o reinado na condição de “príncipe regente” (sua mãe foi declarada insana), o ouro estava cada vez mais escasso e, para complicar ainda mais a vida de Portugal, Napoleão surgia a sua frente.

Como Portugal tinha na Inglaterra uma grande aliada, esta ofereceu proteção para a Coroa fugir ao Brasil em 29/11/1807, levando com ela todo o ouro que podia.

Assim, no início do século XIX praticamente não havia mais ouro que pudesse ser extraído no Brasil, pelo menos com os métodos e a engenharia da época. Se Portugal tivesse a prudência da Inglaterra, por exemplo, e não gastasse de forma inconsequente a riqueza que chegava do Brasil, certamente seria hoje um dos países mais ricos do mundo, estando longe da grave crise econômica que o afeta nos dias atuais. Como já é sabido, temos que conhecer o passado para entender o presente e nos prevenir para o futuro. Portugal não foi diligente, sugou e torrou o ouro fácil que recebia de sua colônia. Hoje paga o preço de sua ineficiência administrativa.

Como o leitor dessa resenha pode perceber, todo o livro está contado no presente texto, todavia, a riqueza de detalhes abordada pelo autor durante sua narrativa é fantástica, cuja leitura nos envolve do início ao fim. A escrita é objetiva e clara. Os fatos são narrados de forma compreensível até para aqueles que desconhecem por completo a história do Brasil. O livro ainda é rico em ilustrações e possui excelente acabamento.

Com extensa bibliografia consultada, trata-se de leitura obrigatória para aqueles que procuram conhecer e entender um pouco mais do nosso lindo e espoliado Brasil!

(Obs.: para conhecer um pouco mais do autor vale a pena visitar o seu blog: http://lfigueiredo.wordpress.com/)

 

Resenha: “O Charuto de Churchill”, Stephen McGinty

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 18-01-2011

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O PODER DA FUMAÇA

 

O CHARUTO DE CHURCHILL, Stephen McGinty, Ed. Record, 2010, 207 p. (tradução de Marcia Frazão).

 

Sempre que se fala em charutos, logo vem à lembrança a imagem de Fidel Castro e Che Guevara, porém, de todos os apreciadores, ninguém se identificou tanto com ele como Winston Churchill.

 

Divertido e de ótima presença de espírito, Churchill foi o comandante das forças aliadas contra o eixo durante a II Guerra Mundial. Sua postura firme e inteligência privilegiada, lhe renderam as glórias de ter derrotado o Führer. Brilhante político, escritor (recebeu o prêmio Nobel), jornalista e pintor, era sempre visto com o seu inseparável charuto.

 

Através de “O Charuto de Churchill”, o jornalista britânico Stephen McGinty traça a vida desse estadista de um posto de vista inusitado. Em uma linguagem clara e objetiva, inicia o livro falando sobre a história do charuto - sua forma de colheita, os tipos de tabaco, a produção artesanal - para, lentamente, interligá-lo a biografia de Churchill.

 

Como diz o autor, “guerra, charutos e uma cochilada à tarde estavam para se tornar elementos fundamentais na vida de Churchill”, estando o democrata imglês sempre envolvido com batalhas políticas e fumaça. Nesse particular, McGinty relata em seu livro: “O charuto funcionava como uma espécie de cata-vento; com seu temperamento intempestivo, podia ser casualmente retirado da boca e ondulado no ar para amenizar o clima ou, quando ele estava particularmente enfurecido, usado para dar uma ordem ou comando berrado com o charuto ainda preso enre os dentes. Nos encontros políticos ele os utilizava como uma forma eficaz de não prestar atenção no interlocutor com o qual não concordava. Nessas ocasiões Churchil se valia de toda sua habilidade no preparo de charutos, acendia seguidamente fósforos e depois soltava uma baforada, às vezes forçando o interlocutor a fazer uma pausa até acabar o ritual.”

 

Não se sabe ao certo quantos charutos fumaça por dia, mas se acredita que variavam de 5 a 10 unidades. Não fumava apenas de uma marca, porém preferia os cubanos da empresa Romeo y Julieta, hoje conhecida mundialmente e produtora de um tipo de charuto grande que leva o seu nome.

 

Falando em Cuba, por diversas vezes Churchill esteve na ilha caribenha, sendo presenteado por todas as marcas de charutos, ansiosas por ter sua imagem vinculada ao primeiro ministro inglês. Churchill nunca deixou de promover os charutos cubanos, tendo dito a um jornalista que “Cuba sempre estará em meus lábios.”

 

Na condição de estrela e sempre bem recebido por onde passava, era frequentemente presenteado com charutos, sendo que durante a II Guerra Mundial o temor de que fosse envenenado levou o governo britânico a solicitar os serviços de um especialista bacteriológico da Inteligência Militar, Dr. Roche Lynch, a fim de verificar se os diversos charutos recebidos continham ou não substâncias nocivas ou letais. Esse fato levou Churchill a ter fornecedores de confiança dos charutos cubanos, sendo Antonio Giraudier o maior deles.

 

O livro ainda relata diferenças existentes entre Hitler e Churchill, o primeiro vegetariano, antitabagista, “que via o próprio corpo como um templo sagrado ao mesmo tempo que reduzia o dos outros a cinzas”, cuja imagem constrasta com a do segundo, que, em resposta ao general Montgomery, que compartilhava de idéias e hábitos naturais, disse: “Bebo demais, durmo muito pouco e fumo um charuto atrás do outro. É por isso que estou 200% saudável.”

 

Churchill não fumava cigarros, apenas charutos. Durou até os 90 anos de idade, privilegiado por uma excelente saúde que lhe permitiu fumar durante aproximadamente 75 anos.

 

Viveu em um tempo onde se podia fumar em qualquer lugar. Se vivesse hoje não poderia gozar impunemente de seu prazer!

 

Resenha: “O Mapa do Tempo”, Felix J. Palma

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 09-01-2011

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O ETERNO SONHO DE CRUZAR A LINHA TEMPORAL

O MAPA DO TEMPO, Felix J. Palma, Ed. Instrísica, 2010, 470 p. (tradução de Paulina Watch e Ari Roitman)

Não é recente a vontade do homem de cruzar a linha do tempo. A possibilidade de viajar para épocas passadas e visitar o futuro é instigante, porém seus efeitos podem ser avassaladores. Trata-se, porém, de uma realidade impossível de acontecer, valendo apenas para inundar de fantasia e sonhos os pobres habitantes desse planeta terra. Porém, nada melhor do que esse tema para encher a imaginação de um universo cada vez maior de pessoas, todas na esperança de que um dia isso de torne possível.

É sobre esse assunto que o escritor espanhol Felix J. Palma nos brinda com seu excelente romance “O Mapa do Tempo”.

Aproveitando a onda de livros de ficção que carregam obras literárias de reconhecimento universal para nortear seus romances, Felix Palma se apoia no livro “A Máquina do Tempo”, do escritor inglês H. G. Wells (1866 - 1946), originalmente publicada em 1895, para criar uma rede de acontecimentos que permeia toda a trama e prende a atenção do leitor do início ao fim.

Transportando H. G. Wells para as páginas de seu romance, o espanhol consegue desenvolver um texto de prosa objetiva e clara, fugindo de lugares comuns e ressaltada pela tradução efetuada por Paulina Wacht e Ari Roitman.

Na trama, que transcorre no ano de 1896, um empresário chamado Gillian Murray promete viagens temporais para os corajosos que quiserem se aventurar até o ano 2000, mais precisamente até o dia 20 de maio, e testemunharem a revolta dos humanos, comandados pelo charmoso capitão Derek Shackleton, contra os autônomos, devolvendo-lhes um mundo que havia sido tomado pelas máquinas.

Por mais que o leitor no correr do livro possa desconfiar da possibilidade real de viajar no tempo, o autor conduz o enredo de forma tão firme e convincente que não é possível largar o livro. Como ocorre em todo bom romance, ainda mais envolvendo ficção científica, a trama é apimentada por inúmeras reviravoltas e desdobramentos por diversas vezes imprevisíveis.

Outro detalhe importante do livro é que o leitor não consegue descobrir (somente no final da leitura), qual é o personagem principal do enredo: o apaixonado Andrew Harrington, a deslumbrada Claire Haggerty, o visionário e ambicioso Gillian Murray ou o próprio H. G. Wells.

O autor, por sua vez, narra a trama de forma despretenciosa e divertida, como se estivesse vendo os acontecimentos em todas as suas épocas e acompanhando todos os personagens.

Em um cuidadoso e inteligente trabalho, Palma cria soluções para todos os problemas que são apresentados na trama, sendo o final surpreendente. Através de seu “O Mapa do Tempo”, ele nos leva a refletir sobre os riscos e consequencias da possibilidade de viajarmos ao passado e darmos uma olhadinha no futuro. Quem resistiria a não modificar o que fez de errado ou mudar o presente para ter um futuro diferente daquele previamente visitado? Ainda bem que isso não é possível e nunca será! Cada um que viva a sua vida e cuide do hoje para ter um excelente amanhã.

O livro é espetacular. Dentre os lançados no Brasil, está entre os melhores de 2010.

Resenha: “Cartas do Everest”, Airton Ortiz

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 22-11-2010

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SUBIDA AO TOPO DO MUNDO

CARTAS DO EVEREST, Airton Ortiz, Rio de Janeiro: Ed. Record, 2008.

Lançado em 2008, o livro “Cartas do Everest” é a única obra ficcional do escritor gaúcho Airton Ortiz. Mais conhecido por seus livros de reportagem e precursor do gênero “jornalismo de aventura”, Ortiz lançou pela Editora Record livros de sucesso como “Em Busca do Mundo Maia”, “Na Trilha da Humanidade”, “Na Estrada do Everest” e “Cruzando a Última Fronteira”, todos integrantes da coleção “Viagens Radicais”. Neles são relatadas as aventuras do escritor pelo mundo, desbravando lugares exóticos em meio a natureza.

“Cartas do Everest” relata a tentativa de Claudio Adônis Montenegro, na companhia de mais dois alpinistas, um americano e outro alemão, em conquistar o cume da montanha mais alta do planeta.

Os capítulos são intercalados entre cartas e fragmentos do diário de Cláudio, onde o leitor pode acompanhar suas adversidades e a beleza encontrada pelo caminho. São abordados, ainda, conflitos emocionais e inerentes à natureza humana:

“Para ter sucesso é preciso estar motivado. Se a motivação for excessiva, é provável que se morra. Há uma febre que costuma atingir os aplinistas menos experientes, a Febre do Cume. Quando uma pessoa está muito perto de alcançar o objetivo, especialmente após um esforço físico penoso, sente uma grande euforia capaz de cegar os olhos para os riscos e, simplesmente, seguir em frente.

Não saber a hora de parar, respirar, analisar com calma e, se preciso for, voltar, pode ser o fim. Não só no alpinismo como em todas as circunstâncias da vida. O excesso de autoconfiança, como todos os excessos, pode matar. Lições que valem por uma vida, quer seja no mar ou na terra.”

O sentimento de companheirismo, luta e conquista são relatados de maneira bastante exaustiva, notando-se que o autor procura passar ao personagem emoções já vividas por ele. Todavia, diversamente de seus livros jornalísticos, “Cartas do Everest” não consegue prender o leitor de forma tão apaixonada, face a dificuldade de impor à obra sentimentos e emoções tão íntimas aos aventureiros, sem falar na riqueza de detalhes e informações que a pesquisa para um texto jornalístico e de reportagem exigem.

Em outubro passado o autor lançou “Havana” (Ed. Record), integrante da coleção “Expedições Urbanas”, retomando com vigor sua veia jornalística, ainda que em forma de crônicas. Busca, assim, voltar ao seu melhor estilo.

Resenha: “O Jogador”, Fiodor Dostoievski

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 09-11-2010

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O VÍCIO DO JOGO

O JOGADOR, Fiodor Mikailovitch Dostoievski, Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 1987 (tradução: Moacir Werneck de Castro).

Nascido em 11 de novembro de 1821, na fria cidade de Moscou, Rússia, Fiodor Dostoievski é mais conhecido por suas obras “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamazov”. Escritor dos mais respeitados, figura sempre ao lado de grandes mestres da literatura como Cervantes, Proust e Flaubert.

Maior representante da literatura russa, a partir de 1844 passou a se dedicar com esclusividade a literatura, procurando viver da venda de seus livros e de traduções. Como a literatura tinha um público mais selecionado e escasso, não demorou para contrair dívidas, fato que foi agravado por problemas de saúde. Para complicar sua vida, foi preso e exilado na Sibéria em 1849.

Como todo bom escritor, teve uma vida movimentada, sempre atento a todos os detalhes que passavam a sua frente. Nesse contexto, Dostoievski absorveu os conflitos humanos e sociais, fatores que foram predominantes para a construção de seus personagens, sempre entrelaçados em conflitos psicológicos e morais.

O livro “O Jogador” foi escrito em 1867 e reflete, em parte, a vida do próprio autor. Dostoiveski, assim como o personagem principal da trama, Alexei Ivanovich, gostava de jogar. No livro, porém, o jogo é uma compulsão, tratado de forma doentia.

O protagonista não dá ouvidos aqueles que procuram controlar sua insaciedade pelo dinheiro, mantendo-se firme em seus propósitos mesquinhos. Ganha fortunas mas em pouco tempo perde o dinheiro obtido, levando ao leitor a sentir-se irritado com Alexei e mandá-lo parar de se arriscar. Como no jogo quem sempre ganha é o dono da banca, não preciso me estender para que possam prever o final, porém, a leitura se torna ainda mais interessante com esse detalhe sórdido, até mesmo para que possamos entrar no universo criado pelo escritor russo e contemplar com riqueza de detalhes a vida da burguesia da época e o modo como os espertinhos de plantão circulavam entre a nobreza.

Paralelo a tudo isso Alexei vive uma conturbada relação de amor e ódio com Paulina Alexandrovna, cuja paixão por ela e o vício compulsivo pelo jogo lhe consomem.

Vale a leitura desse pequena obra-prima, a qual foi ditada por Dostoievski para estenógrafa Anna Grigórievna Snítkina, sua futura esposa, em apenas vinte e seis dias, dentro do exíguo prazo determinado por seu editor. Aentrega do livro lhe rendeu uns bons trocados para aplacar a ira de seus credores e viajar pela Europa a procura de um pouco de tranquilidade.

Dostoievski faleceu em São Petesburgo, Rússia, no dia 9 de fevereiro de 1881, com então 59 anos de idade.

Resenha: “A Vida Real”, Fernando Sabino

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 24-11-2009

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SABINO EM SONHO

A VIDA REAL, Fernando Sabino, 2ª. ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1963, 209 pág.

Acabo de ler “A Vida Real”, do escritor mineiro, morto em 2004, Fernando Sabino.

Meu exemplar, particularmente, é guardado com carinho. Adquirido em um sebo, é o livro nº. 3975 da 2ª. edição (out/1963) - a primeira teve apenas 500 exemplares e foi lançada em 1952, quatro anos após Sabino regressar ao Brasil de Nova York (dessa permanência resultou o livro “A Cidade Vazia”).

“A Vida Real” é composta de cinco novelas, tendo como tema central “a emoção vivida durante o sono”. Diferente do que ocorre em diversos outros de seus livros, Fernando Sabino não procura narrar situações do cotidiano, optando por abordar questões subjetivas e dramas pessoais passados pelas personagens.

O estilo claro, limpo e objetivo, característico dos textos de Sabino está presente, garatindo uma leitura agradável e ágil.

Vale a leitura para conhecer um outro lado do autor, o lado da imaginação e da ilusão.

Resenha: “Jubiabá de Jorge Amado”, Spacca

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 24-11-2009

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JUBIABÁ, POR SPACCA
Jubiabá/Jorge Amado: adaptação e desenhos de Spacca, São Paulo: Cia. das Letras, 2009, 95 pág.

Já conhecido por outros trabalhos, notadamente “Santô”, sobre Santos-Dumont, e “D. João Carioca”, sobre a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil, Spacca se apresenta como um dos mais conceituados e premiados quadrinistas do País.

O livro “Jubiabá”, do baiano Jorge Amado, escrito entre os anos de 1934 e 1935, foi por Spacca adaptado e ilustrado no formato de História em Quadrinhos (HQ). Conta a trajetória de Antônio Balduíno, o Baldo, que nasceu na pobreza da cidade de Salvador (BA), e era protegido de Jubiabá, seu pai-de-santo. Malandro desde pequeno, foi acolhido por uma família de posses mas não se endireitou. Preferia a malandragem, a vida nas ruas, local onde tinha amigos. Foi boxeador, trabalhou em plantação de fumo, atuou como artista de circo e por fim estivador, tendo inclusive comandado uma greve no porto. Mulherengo, gostava de um rabo de saia, tendo um amor contido por Lindinalva, filha do comendador que o havia acolhido e que, por ironia do destino, acabou tendo um fim trágico.

Em “Jubiabá”, Jorge Amado apresenta sua ideologia política, consubstanciada nas dificuldades sofridas pelas classes minoritárias, subjugadas pelos ricos e poderosos.  Esse aspecto é bem abordado por Spacca em suas ilustrações, sempre coloridas e com riqueza de detalhes.
Inconteste que para adaptar um livro de tamanha grandeza para HQ, Spacca se obrigou a conhecer profundamente a obra, as características de cada personagem e a Salvador dos anos 20. Para isso viajou para lá onde pode pesquisar a arquitetura e costumes da época.
O resultado é apresentado pela “Quadrinhos na Cia.”, novo selo da Companhia das Letras. Para maiores informações, vale consultar o blog http://jubiaba.blogspot.com/, mantido pelo próprio Spacca, onde o leitor poderá conferir todo o processo de produção do livro, o qual levou um ano e meio para ficar pronto.

Resenha: “A Máquina de Xadrez”, Robert Löhr

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 24-11-2009

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O AUTÔMATO ENXADRISTA
A MÁQUINA DE XADREZ, Robert Löhr, Rio de Janeiro: Ed. Record, 406 pág.
Baseado numa história real, o escritor alemão Robert Lörh nos apresenta, em seu romance de estréia, um livro cercado de mistérios, surpresas e muito humor.

O enredo circula em torno do famoso invento do barão Wolfgang von Kempelen, que no século XVIII encantou a aristocracia do Império Austro-Húngaro com seu autômato vestido de turco e que jogava xadrez. O invento não passava de uma grande farsa, sendo que dentro da máquina estava escondido o anão Tibor Scandanellli, exímio enxadrista.

Kempelen, gozando de alto prestígio junto a sociedade, promovia disputas e organizava desafios pelo império, fazendo sombra às ilusões proporcionadas pelo francês Jean Pelletier, expert em magnetismo.

Não tardou para que o astuto anão Tibor se revoltasse contra o criador da máquina de xadrez, posto que era responsável por toda a precisão das jogadas e nunca aparecia em público, longe dos banquetes e homenagens, sempre estando apertado e suando dentro de uma máquina cuja iluminação era proporcionada por singelas velas. Entre discussões e promessas, inesperadamente aparece morta, em circunstâncias misteriosas, uma bela aristocrata, não tardando a recaírem sobre o autômato todas as suspeitas.

Como o leitor pode perceber, o livro é delicioso do início ao fim. A leitura segue fácil e todas as características da época são apresentadas com primor por Robert Löhr.

Apesar de Kempelen ser o inventor da máquina, Tibor Scandanelli é a personagem que mais fascina na narrativa. Dono de uma habilidade incontestável, perito em movimentar bispos, torres e cavalos, o anão ainda consegue ter um romance proibido e ser o centro de intrigas e mistérios. Ótima leitura!

Resenha: “O Leitor”, Bernard Schmitz

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 24-11-2009

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O SEGREDO DE HANNA SCHMITZ

O LEITOR, Bernard Schlink, Rio de Janeiro: Ed. Record, 2009, 239 pág.

Sempre que um livro vai para as telas do cinema somos tentados a ver o filme e deixar o livro de lado. Com “O Leitor”, de Bernard Schlink, fiz diferente. A trama já havia me chamado a atenção e não posso negar que vi na personagem de Hanna Schmitz a atriz Kate Winslet.

O livro, porém, é muito bom e mereceu o belo trabalho de Stephen Daldry na direção do filme, o qual assisti uma semana após terminar a leitura e confesso que fiquei fascinado. Os sons, as expressões faciais, o jogo de luzes, de imagens, de emoções, envolvem o telespectador deixando-o participar do enredo. Quem ainda não viu o filme que leia o livro antes, irá se surpreender.

“O Leitor” conta o envolvimento de um jovem rapaz com uma mulher adulta. Os dois passam a viver um tórrido romance cujas marcas seguirão Michael Berg pelo resto de sua vida. A mulher, porém, esconde um segredo e o casal se separa para, no futuro, o jovem encontrá-la na condição de ré em um julgamento referente crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial. O que ocorre após sua condenação, fundada no segredo que prefere guardar à ser exposta vexatoriamente ao olhos de todos, é uma criteriosa junção das considerações lançadas nos capítulos iniciais, em perfeita sintonia, mas que não chegam a surpreender o leitor atento que pode deduzir o destino final que o autor dá à personagem de Hanna Schmitz.

Bernard Schlink, porém, consegue manter em toda a narrativa seu poder de persuasão, deixando o leitor atento e curioso com os desdobramentos que estão por vir. Aliás, o autor é professor de Filosofia e Direito da Universidade de Humboldt, fato que justifica o caráter filosófico de diversas passagens do livro, as quais não são abordadas por completo no filme até mesmo em razão da subjetividade que as norteia.

Ao lado de “O Perfume”, de Patrick Suskind, que também foi adaptado para o cinema, é um dos livros mais traduzidos da literatura alemã. Não assista o filme sem antes tê-lo lido.

Resenha: “Cartas a um Jovem Escritor”, Mario Vargas Llosa

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 24-11-2009

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ARQUITETURA DE UM ROMANCE

CARTAS A UM JOVEM ESCRITOR, Mario Vargas Llosa, Rio de Janeiro: Ed. Elsevier, 2006, 181 pág.

Como se trocando correspondência, o autor, escritor reconhecido no cenário mundial, conversa com um leitor que pretende alçar voo na arte da letras. Sua primeira dica não poderia ser outra: leia. A leitura é requisito básico.

Viajando pelo mundo de Cervantes, Flaubert e outros autores consagrados, traça linhas para a construção de um livro procurando apresentar linhas metodológicas para a criação de um texto claro e coeso.

Com destaque ao poder de persuasão que deve nortear a escrita, diz que o escritor não escolhe seus textos, mas é escolhido por eles. Versa sobre a forma, estilo e coerência, sempre destacando autores do quilate de Borges, Steinbeck, Faulkner, Poe, Kafka, entre outros.

Em todo o livro o autor procura demonstrar que a construção de um romance não é obra do acaso, que depende de um estudo prévio e dedicação daquele que se predispõe a esse propósito.

Para Llosa, “se as palavras e a estrutura de um romance forem eficazes e apropriadas à história que o autor pretende tornar persuasiva, isso significa que seu texto possui um ajuste tão perfeito, uma fusão tão cabal do tema, estilo e pontos de vista, que o leitor, ao lê-lo, ficará de tal forma sugestionado e absorvido pela história que se esquecerá por completo da maneira como ela é contada, envolvido pela sensação de que aquele romance carece de técnica e de forma, de que se trata da própria vida se manifestando através de personagens, cenários e acontecimentos que nada menos são que a realidade encarnada, a vida lida.”

Mario Vargas Llosa é peruano nascido em Arequipa. Autor de livros como “Pantaleão e as Visitadoras”, “Lituma nos Andes” e “A Guerra do Fim do Mundo”, foi candidato a presidente do Peru em 1990, tendo sido derrotado por Alberto Fujimori no segundo turno. Com frequência escreve no jornal O Estado de São Paulo e ao lado de Gabriel Garcia Márquez é um dos maiores escritores da América Latina na atualidade.

Resenha: “No Mundo dos Livros”, José Mindlin

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 24-11-2009

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A LEITURA COMO EXEMPLO

NO MUNDO DOS LIVROS, José Mindlin, Rio de Janeiro: Ed. Agir, 2009, 103 pág.

O famoso escritor argentino José Luis Borges dizia que sempre imaginou o paraíso como uma grande biblioteca. Acredito que para o bibliófilo e membro da Academia Brasileira de Letras, José Mindlin, essa premissa deva ser verdadeira.
“No Mundo dos Livros” é uma declaração de amizade. Em ritmo de conversa, o autor nos apresenta como iniciou sua famosa biblioteca, uma das maiores da América Latina e cujo acervo referente a história do Brasil foi doado para a Universidade de São Paulo e aguarda a construção de um prédio para abrigar todos os exemplares. O autor ainda lança pequenos lampejos de sua infância e tempos de acadêmico de direito, relatando seu contato com grandes escritores da época como Monteiro Lobato.
No entanto, deixa claro que seu maior interesse sempre foi pela leitura, sendo voraz o seu apetite nesse campo. Assim, desde cedo se familiarizou com os grandes clássicos universais, não esquecendo, todavia, da importância da literatura nacional para sua formação intelectual e cultural.
A conversa, pois a leitura do livro assim se apresenta, no entanto, mais impressiona pela empolgação do autor ao falar sobre o prazer da leitura, não sendo poucas as vezes que Mindlin se desculpa por não ter tempo para abordar todos os assuntos com mais vagar. Nesse particular reside a parte mais fascinante da leitura, qual seja: o exemplo dado por um bom leitor.
Gosto de falar de livros e discutir leituras com amigos e conhecidos, ainda que muitos não tenham o hábito de ler. Fico animado quando algum deles apresenta curiosidade pelo que estou falando. Tenho que um dos maiores incentivos para novos leitores é o contato com aqueles que conhecem literatura e gostam de falar sobre ela. Caso possam fornecer dicas de leituras e dados sobre a vida dos escritores, melhor ainda. Todos aqueles que se interessam por livros ficam maravilhados em ter contato com escritores e costumam partir dessas conversas querendo devorar livros e mais livros. Infelizmente, aqui nesse nosso rincão, poucos são os autores que se prontificam a conversar, sendo que muitos deles, especialmente aqueles que se julgam de primeira estirpe, preferem o isolamento e até se mostram arredios ao contato com seus leitores.
Tal fato, porém, nada deve representar, pois, segundo Montesquieu, “nunca tive um dessabor que uma hora de leitura não aliviasse”.
Assim, fica o incentivo para a leitura, para novas descobertas e encontros. Não precisa necessariamente ser um clássico, um monstro sagrado, mas um livro que lhe agrade, que lhe dê prazer. Dessa forma, encerro essa singela resenha citando Varlam Chalámov, escritor russo falecido em 1982, que assim dizia:
“Os livros são como pessoas; eles podem decepcionar ou envolver. Na vida de qualquer homem alfabetizado há sempre um livro que desempenhou um importante papel em seu destino. Frequentemente não se trata de uma obra de um gênio reconhecido, mas de um ordinário romance de um modesto escritor.”

Resenha: “O Cosmos de Humboldt”, Gerard Helferich

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 09-03-2009

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A VIDA DE HUMBOLDT

O COSMOS DE HUMBOLDT, Gerald Helferich, Rio de Janeiro: Ed. Onjetiva, 2005, 390 pág.

 

            Em nova incursão ao sebo da cidade, localizei “O Cosmos de Humboldt”, livro que vinha garimpando a um bom tempo. O livro conta a história de Alexander Von Humboldt, prussiano que abandonou o conforto de uma vida luxuosa, porém sofrida na mão de sua mãe, para aventurar-se no Novo Mundo. Financiando a própria viagem, foi incumbido pela Coroa Espanhola de realizar a primeira exploração científica pelo novo continente.

 

            Sua aventura é magistralmente apresentada aos leitores por Gerald Helferich, o qual baseia suas conclusões em relatos e farta biografia sobre Humboldt bem como nos próprios diários de viagens do mesmo.

 

            Relata com precisão o contato do naturalista com onças, jacarés e povos nativos de praticamente toda a América Espanhola. Entre os países visitados podemos citar Cuba, Venezuela, Equador, Colômbia, Peru e o México (Nova Espanha). O Brasil, infelizmente, ficou de fora do seu trajeto por razões políticas decorrentes da relação tensa existente entre Portugal e Espanha. Assim, se fosse pego pelos portugueses sua autorização para transitar perante as terras pertencentes à Espanha não teria valor, fato que acabaria por frustrar toda sua expedição.

 

            Companheiro inseparável, Bonpland seguiu com Humboldt por toda a viagem, que perdurou de 1798 até 1804. Em sua viagem selecionou e encaminhou para a Europa inúmeras espécies de plantas e animais, sendo que sua fama de explorador e desbravador lhe antecedeu, tanto que ao retornar foi laureado e recebido com todas as pompas e circunstâncias a que tinha direito.

 

            Amigo de membros da Coroa e políticos prestigiados – Thomas Jefferson, então presidente dos Estados Unidos, era seu amigo e admirador – incentivou as pesquisas científicas, promovendo novos talentos e conseguindo recursos para pesquisas nas mais diversas áreas.

 

            Por onde andava era referenciado e todos lhe questionavam sobre suas caminhadas ao monte Chimborazo (pico mais alto dos Andes do norte e na época tido como a montanha mais alta do mundo), a navegação pelo Orenoco (uma das maiores vias fluviais do continente sulamericano), sobre Havana, o império Inca e Asteca. Suas descobertas e anotações transformaram a oceanografia, a vulconologia, a fitogeografia, o magnetismo, a antropoligia, entre outras.

 

            Após retornar, escreveu dezenas de livros entre eles “Narrativa Pessoal das Viagens às Regiões Equinociais do Novo Continente”, cujo relato inspirou Charles Darwin à partir em sua viagem com o Beagle e posteriormente formular a teria da Evolução das Espécies que o tornaria famoso. Seu livro mais conhecido, no entanto, é “Cosmos: Um Esboço da Descrição Física do Universo”.

 

            Alexandre Von Humbold está presente nos dias atuais nas mais variadas formas, emprestando seu nome para cidades, aldeias, montanhas, geleiras, parques, florestas e até mesmo um acidente extraterritorial.

 

            Ainda que não tendo feito uma descoberta isolada que o deixasse conhecido pela eternidade, Humboldt abriu caminhos para pesquisas que somente puderam ser realizadas posteriormente, tendo cultivado uma geração de ilustres cientistas que o sucederam, sendo, como diz o autor do livro, “um dos criadores desse mundo moderno que achamos óbvio”.

 

 

 

Poesia: “Ilusões da Vida”, Francisco Otaviano

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 26-01-2009

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“Quem passou pela vida em branca nuvem

E em plácido repouso adormeceu;

Quem não sentiu o frio da desgraca,

Quem passou pela vida e não sofreu;

Foi espectro de homem, não foi homem,

Só passou pela vida, não viveu.”

 

Conto: “Uma Calçada em suas Vidas”, C. Hruschka

Postado por Cristian Luis Hruschka | Postado em Sem categoria | Postado dia 07-01-2009

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UMA CALÇADA EM SUAS VIDAS

Cristian Luis Hruschka

Olhava para o chão, pensativo, enquanto caminhava pela rua. Transcorrido um pequeno trecho, da esquina até o portão do colégio, encontrou as listras brancas da faixa de pedestre no asfalto. Absorto em pensamentos colocou o pé direito na rua, recuando ao observar a aproximação de um veículo em alta velocidade. Chegou a lhe passar pela cabeça a falta de respeito dos condutores para com os pedestres, porém lembrou que quando dirigia raras vezes dava preferência aos mortais cidadãos nas largas avenidas.

O carro passou seguido por outros que vieram na mesma velocidade.

- Olá, tudo bem? – perguntou a moça que se aproximou ao lado dele. – Quase que o carro te pega!

- Tudo bem – respondeu com educação. - Complicado atravessar a rua nesse horário, não acha?

- Aqui é sempre assim, ainda mais quando está próximo da hora em que termina a aula da criançada – sorriu gentilmente. - Sou professora aqui no colégio. Laura. Prazer!

- Ricardo – respondeu ele com timidez apertando de leve a mão da garota. No toque pode sentir a pele lisa e macia “como a neve”, pensou o rapaz mesmo sem nunca ter estado em qualquer lugar com temperatura abaixo dos quinze graus. Questionou, procurando manter a conversa, qual a matéria que ela lecionava, ainda que tenha reparado no livro sobre a espécie humana que Laura carregava nos braços. Prontamente ela respondeu que era biologia, mas que na verdade queria ser médica, estava estudando para o vestibular. Seu sonho era ser geneticista. Essa conversa se arrastou por cinco minutos e os dois não tiveram coragem de atravessar a avenida, ainda que tenha surgido oportunidade nas raras tréguas que os veículos proporcionaram.

- Acho que vou correr agora – falou ela repentinamente.

- Então vamos.

Ao darem o primeiro passo foram surpreendidos por uma motocicleta que apareceu do nada. Recuaram num salto. Ricardo comentou que essa tinha sido por pouco. Que o espelho retrovisor, inclusive, havia lhe beliscado o braço.

A conversa teve que prosseguir. Ricardo disse que era artesão, que trabalhava com argila fazendo pequenas esculturas. Reclamou da situação, claro, mas estava ciente de que sua lamúria não adiantava de nada, que a arte em nosso País realmente era menosprezada, senão desprezada.

Laura concordou de pronto, mas demonstrou uma grande curiosidade pelo ofício do rapaz. Queria saber de onde vinha a argila, de que forma ela era trabalhada e se era necessário muita prática para esculpir.

- Basta ter vontade e dedicação - respondeu sorridente o jovem escultor.

Passava agora de 20 minutos e o casal permanecia parado no meio-fio. Defronte à faixa de pedestres. Laura perguntou-lhe se dava aulas particulares ao que foi surpreendida: - Não só dou aulas como faço o convite para que participe de uma delas. “Não acredito. Paquerando em plena calçada”, pensou ele procurando com mais atenção os olhos da jovem e percebendo, ao ponto dela notar, que eram lindos.

Na avenida os veículos não paravam. Caminhão, carro, ônibus, moto e camionete. Era barulho e fumaça para todo tipo de gosto, passando nas mais diversas velocidades. Ainda que entretido na conversa, Ricardo reparava na pequena multidão que se formava por ali. Algumas das faces eram sisudas e preocupadas. Outras despretensiosas e irresponsáveis.

A calçada, bem cuidada, porém muito estreita, estava cheia. Todos aguardavam ansiosos a hora de atravessar a avenida.

- Bem que podiam colocar uma sinaleira aqui - falou um sujeito com pinta de entregador. - Ou então uma lombada eletrônica - retrucou a senhora ao lado com crachá da prefeitura municipal. O casal, no entanto, permanecia conversando. Não via o tempo passar.

Quarenta e cinco minutos de espera. Atrás de Laura e Ricardo já se formava na calçada uma pequena confusão entre os pedestres, impacientes. Por sorte havia um pastor evangélico na “turma da faixa” que tratou de doutrinar os mais exaltados: - a paciência é uma virtude - dizia. Um rapaz da vizinhança, esperto, logo instalou um isopor cheio de água gelada e limonada. Forrou o bolso de trocados.

- Acho que depois desse a gente vai - gritou um rapaz no final da fila, logo apelidado de Moreno.

- Não dá não, cara – retrucou um senhor que se acotovelava próximo a ele.

Nenhuma alternativa tinham. Chegaram a pensar em colocar uma senhora que estava por ali para liderar a turma, mas não tinha jeito, os carros não paravam.

O casal na beira da calçada não se importava muito com tudo isso, a conversa estava rendendo. Laura acabara de receber um convite para jantar após a aula de escultura e não ouviram o sinal do colégio disparar. Final da aula. Correria dos alunos. Pequenas feras enjauladas que se estrepitavam para a rua, indiferentes ao tumulto instaurado na beirada da calçada, em frente a faixa de pedestres. O pirralho mais rápido, faceiro de sua velocidade, foi empurrado pelos que lhe seguiam e tropeçou sobre os pedestres ali enfileirados. Como um dominó eles foram caindo um sobre os outros. O casal olhou para trás e, na beirada do meio-fio, não conseguiram se segurar em nada. De forma abrupta caíram juntos sobre a avenida. Grande silêncio se fez. Os carros pararam. Os pedestres cruzaram a pista. Durante a noite Laura e Ricardo se encontraram para a aula de escultura em argila e saíram para jantar.